quinta-feira, 1 de julho de 2010

Florbela Espanca


Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa em Alentejo, filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo. Registrada como filha de pai desconhecido, foi criada pelo pai e pela madrasta Mariana Espanca, assim como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registrado da mesma maneira. O curioso é que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, já próximo a inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de “florbelianos”, a reconheceu como filha.


Desejos vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!


Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão é ate da morte!


Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos céus, os braços, como um crente!


E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...


Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo os problemas psicológicos, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um edema pulmonar.



Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.

Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo caráter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, fato reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.

Poetisa de excessos. Cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina. A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.


Um comentário:

  1. Conheci Florbela através do Sarau de Poesias, que acontece todo mês no Instituto que eu trabalhava, eu sempre pesquisa a fundo a vida e a obra de cada poeta, mas com Florbela foi diferente, me identifiquei muito com sua obra e sempre tive vontade de montar alguma coisa em cima de suas poesias, decorei algumas, mas ficou por isso mesmo, agora em plena faculdade, criamos o Grupo Teatral SóArte e então pude realizar essa vontade. Hoje mais do que nunca, adimiro demais essa Mulher.

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